Concerto Sinfónico de celebração do 100.º aniversário do nascimento de José Saramago

«Música na palavra de Saramago»


Sexta-Feira, 2

22:00, Palco 25 de Abril

Música de autores citados em vários livros da obra de José Saramago e música original inspirada na obra do Prémio Nobel da Literatura de 1998. Este foi o critério seguido para elaborar o programa do Concerto Sinfónico da Festa do Avante! de 2022, que pretende assim associar-se à celebração do centenário do nascimento do escritor e militante comunista.

A partir deste critério foi possível elaborar um alinhamento que atravessa boa parte da história da música, do barroco à música contemporânea, apresentada a partir de personagens e textos que abrangem publicações de José Saramago, escritas e editadas entre 1953 e 2011.

Será assim apresentada uma síntese que, do lado da música, abrange actuações de solistas (cravo e violoncelo), de orquestra e de canto de ópera, enquanto do lado literário se fazem referências a obras de poesia, romance e dramaturgia, tal como se explica detalhadamente nas páginas seguintes.

A obra de Saramago inspirou vários compositores a criarem peças musicais relacionadas com os seus textos, tanto na música popular como na chamada música erudita. Para este concerto sinfónico o exemplo, que encerra o programa, vem de uma peça criada pelo português António Pinho Vargas, que compôs Memorial, dedicada aos romances Ensaio Sobre a Cegueira, As Intermitências da Morte e Ensaio Sobre a Lucidez.

SARAMAGO E A MÚSICA

Tânia Valente

 

Música e investigadora no CESEM- NOVA/FCSH

Em 1995, José Saramago escrevia nos Cadernos de Lanzarote:

«Todas as características da minha técnica narrativa actual provêm de um princípio básico segundo o qual todo o “dito” se destina a ser “ouvido”. Certas tendências, que reconheço e confirmo, suponho que me vêm de uma certa ideia de um discurso oral tomado como música.» (1)

Dito de outra forma, antes de escrever, Saramago escutava a «música das palavras». Porém, a relação de Saramago com a música está não só neste discurso fonético, mas está também no conteúdo dos seus romances. Para Saramago, a Literatura podia «conviver com a música na mais perfeita harmonia». (2)

Muitos são os compositores que tocam Saramago e talvez por isso não faltem nos romances referências musicais, que enriquecem o subtexto, como em O ano da Morte de Ricardo Reis, quando Pessoa diz a Ricardo Reis «É mulher, Bravo, feito D. João nessa sua idade, duas em tão pouco tempo, parabéns, para mil e três não lhe falta tudo» (3) Trata-se isto de uma referência à ária “Madama mia, il catalogo é questo” da ópera Don Giovanni de Mozart.

A paixão que o escritor nutria por esta obra levá-lo-ia a aceitar o convite para escrever, com o compositor italiano Azio Corgui, o libreto da ópera Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido, também publicado em romance. Nesta ópera, o personagem central declara que «Don Giovanni é um cavaleiro, não viola, seduz». Esta frase resume tudo o que Saramago pensa acerca da sua personagem. Para ele, Don Giovanni não podia ser tão mau como o andavam a pintar desde Tirso de Molina, nem D. Ana ou D. Elvira tão inocentes criaturas, sem falar do Comendador, puro retrato de uma honra social ofendida, nem de um Don Octávio que mal consegue disfarçar a cobardia sob as maviosas tiradas que no texto de Da Ponte vai debitando.

Há romances, onde a relação concreta do mundo literário de Saramago com o da música atingem um significado particularmente elevado.

Em Memorial do Covento, a presença da música baseia-se num facto verídico: a vinda do compositor italiano Domenico Scarlatti a Portugal para dar aulas à infanta Maria Bárbara, filha de D. João V, cujo nascimento foi celebrado pela construção do convento de Mafra. No romance, Scarlatti desenvolve interessantes diálogos sobre música com o padre Bartolomeu de Gusmão. Quando não fala por palavras, Scarlatti expressa-se através da música. Nesta breve passagem, Saramago atribui à música de Scarlatti a capacidade de unir classes:

«Scarlatti, tendo fechado portas e janelas, senta-se ao cravo , que subtil música é esta que sai para a noite de Lisboa por frinchas e chaminés, ouvem-na os soldados da guarda portuguesa e alemã, e tanto a entendem uns como a entendem os outros, ouvem-na sonhando os marujos que dormem à fresca nos conveses e acordando a reconhecem, ouvem-na os vadios que se acoitam na Ribeira, debaixo dos barcos varados, ouvem-na os frades e freiras de mil conventos, e dizem, São os anjos do Senhor (…) ouvem-na os embuçados que vão a matar e os apunhalados que, ouvindo, não pedem mais confissão e morrem absolvidos (…) ouvem-na Baltasar e Blimunda, que deitados perguntam, Que música é esta». (4)

Para Saramago amúsica é uma paixão, que quase concorre em pé de igualdade com a literatura. Há um instrumento musical que Saramago ama, ao ponto de ser a sua «debilidade»: o violoncelo, personagem central em As Intermitências da Morte. Este romance conta a história de uma morte caprichosa, que um dia decide deixar de matar. Noutro dia, retorna à sua missão, mas agora através de cartas, endereçadas a quem morreria dentro de uma semana. Porém há uma carta que é devolvida continuamente à sua remetente. Desorientada, a morte desce à Terra sob a forma humana, para saber quem é este destinatário e entregar-lhe a carta pessoalmente. Descobre então um homem aparentemente banal, mas com uma qualidade especial: toca violoncelo. Não era «um rostropovitch…não passava de um solista de orquestra quando o acaso de um programa assim o exigia» (5), nem era «um daqueles famosos concertistas que percorrem o mundo inteiro tocando e dando entrevistas.» (6) Porém é este homem que, na sua simplicidade, consegue a proeza de apaixonar e humanizar a morte através da música. E perante esta morte transformada numa mulher, «rodeado de livros, de cadernos de música, de partituras», também o violoncelista se transforma «no próprio Johann Sebastian Bach compondo em cöthen o que mais tarde seria chamado o opus mil e doze». (7)

Em Claraboia, romance que se desenrola no espaço fechado de um prédio, a música atravessa paredes, quebra silêncios espessos e pesados e toca vidas. É o que acontece com Justina, uma mulher sofrida que vive com um marido que já não suporta, e que perdeu a única alegria da vida, a sua filha Matilde, com quem ainda sonha: 

«Os olhos perdidos de Justina lutaram contra a angústia dos sons que lhe enchiam os ouvidos. Sentia que era arrastada para o abismo negro e fundo, e lutava para não se afundar. Na queda, apareceu o sorriso claro de Matilde. Agarrou-se-lhe com desespero e mergulhou no sonho. Atravessando as paredes e subindo até às estrelas, ficou a música, o andamento lento da Heróica de, clamando a dor, clamando a injustiça da morte do homem.» (8)

A fonte desta música é uma velha telefonia que pertence à vizinha Adriana, personagem que venera Beethoven e que queria ter a sua máscara fúnebre, objecto inacessível, que associa a um amor platónico. Também será um rádio que, com uma qualquer canção, irá iluminar a escuridão dos cegos em Ensaio sobre a Cegueira.

Para concluir, nestes romances Saramago atribui à música o poder de curar, unir, humanizar e iluminar: «Voando a máquina todo o céu será música!» (9) Daí talvez a grande paixão de Saramago pelo mundo da música. 

Notas

(1) Saramago, José, Cadernos de Lanzarote, Diário II, Lisboa: Caminho, 1995, p.49
(2) Saramago, José, As Intermitências da Morte, Lisboa: Caminho,2005, pp.155
(3) Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Lisboa: Caminho, 1984, p.177
(4) Saramago, O Memorial do Convento, Lisboa. Porto Editora, 2015 (1.ª edição 1982), p.179
(5) Saramago, 2005, pp. 213
(6) Saramago, 2005, p. 174
(7) Saramago, 2005, pp. 213
(8) Saramago, José, Clarabóia, Lisboa: Porto Editora, 2011, p. 35
(9) Saramago, 2015 (1982), p.194 

Breve nota sobre Memorial (2018) para Orquestra Sinfónica

António Pinho Vargas

 

O principal desafio da composição desta obra, escrita para a celebração dos 20 anos do Prémio Nobel, era tentar usar, dos modos que fosse capaz de encontrar, as grandes metáforas da trilogia de José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, Ensaio sobre a Lucidez e As Intermitências da Morte. Este último livro permaneceu no meu trabalho como pano de fundo, painel subterrâneo ou lugar indizível.

Assim sendo, os títulos dos quatro andamentos são: I Da Cegueira, II Da Cegueira (con basso profondo), III Da Violência e IV Da Lucidez (as luzes). Foi durante o processo composicional que os dois primeiros andamentos,muito ligados nos seusmateriais,me conduziram ao uso do termo basso profondo, não no seu sentido literal, mas como signo que assinala umamelodia grave, umbaixo que emerge e anuncia as consequências terríveis da epidemia da cegueira. Em termos formais faz a ligação ao III, uma figuração musical possível das violências de vários tipos que percorrem os três romances. O IV andamento - Da Lucidez (as luzes) – é, ele próprio, tripartido: uma introdução, uma nova epidemia branca e um«acender de luzes» final que abre uma esperança, uma possibilidade nova sempre renovada, que termina num determinado acorde sem resolução. Essa é ametáforamusical final: as luzes permanecemacesas enquanto potência-por-vir.

Esta obra foi escrita para o concerto que celebrou os 20 anos do Prémio Nobel de José Saramago e foi estreada na Cultugest em Dezembro de 2018 pela Orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida por Jonas Alber. 

Os livros que vão a concerto

Pedro Tadeu

 

Ouvindo Beethoven

(poesia) - 1966 
Música relacionada: Abertura Coriolano Opus 62 – de Ludwig Van Beethoven

Este poema, que seria transformado em canção por Manuel Freire, faz parte do livro Os Poemas Possíveis onde vários compositores portugueses foram buscar letras. Publicado durante a ditadura e sujeito à apreciação da censura (o que de certa forma é logo denunciado no título do livro), a poesia que lá está afirma ideias de liberdade, fraternidade e luta. No caso de Ouvindo Beethoven (um compositor desses ideais), Saramago apresenta uma reflexão sobre a repressão autoritária e de como, inevitavelmente, apesar dela, acabará por chegar aquilo a que chama «o dia das surpresas». Esse dia aconteceu a 25 de abril de 1974.

«No fundo, eu não deixei de ser poeta, mas um poeta que se exprime através da prosa e provavelmente – e esta é uma ideia lisonjeira que eu quero ter de mim mesmo – é possível que eu seja hoje mais e melhor poeta do que quando escrevia poesia.»

José Saramago

Memorial do Convento

(romance) – 198
Música relacionada: Peças para cravo de Domenico Scarlatti

A narrativa parte da construção do Convento de Mafra, o cumprimento de uma promessa do rei D. João V em troca da graça divina de ter herdeiros para a coroa. A obra gigantesca é feita à custa do sacrifício da população pobre e custa a vida a muitos operários. Um desses trabalhadores é Baltazar que, com Blimunda, por quem se apaixona, acabampor ser as personagens centrais do romance. Um dos personagens relevantes, real, como explica Tânia Valente noutro texto deste trabalho, é o notável músico italiano Domenico Scarlatti.

«É uma ficção sobre um dado tempo do passado, mas visto da perspectiva do momento em que o autor se encontra, e com tudo aquilo que o autor é e tem: a sua forma̧ção, a sua interpretação domundo, omodo como ele entende o processo de transformação das sociedades.»

José Saramago

Ensaio sobre a Cegueira

(romance) – 1995
Música relacionada: Memorial, de António Pinho Vargas 

Toda a população fica cega menos uma mulher que, face à crueldade e intolerância entretanto prevalecente, resolve esconder esse facto – e ela vê a sociedade a desagregar-se cada vez mais, numa espiral de violência, ódio, exploração e selvajaria. Este é o pano de fundo de um romance que seria adaptado para o cinema pelo realizador brasileiro Fernando Meirelles e que, como explica António Pinho Vargas noutro texto, é uma das três obras que inspiraram a peça sinfónica original que o compositor português escreveu sobre livros do Prémio Nobel da Literatura de 1998.

José Saramago: «É uma tentativa de nos perguntarmos o que é quem somos. E para quê? Provavelmente não existe uma resposta e, se existisse, seguramente não seria eu a pessoa capaz de oferecê-la. No fundo, o que o livro quis expressar é muito simples: se somos assim, que cada um se pergunte porquê.» Ensaio sobre a Lucidez (romance) – 2004 Música relacionada: Memorial, de António Pinho Vargas Depois do fim da «cegueira branca» retratada em Ensaio sobre a Cegueira, há umas eleições onde 70% da população desse romance resolve votar em branco, num protesto contra a má qualidade dos políticos de todas as tendências. Essa manifestação desencadeia uma primeira reacção repressiva emanipulativa por parte dos governantes, mas a lucidez da população obriga-os a abandonar a cidade, que fica isolada e entregue a si própria. Este é outro dos três livros de Saramago que inspirou António Pinho Vargas.

«É, ao mesmo tempo, uma fábula, uma sátira e uma tragédia. Quis que a fábula fosse uma sátira, mas não pude evitar que fosse também uma tragédia. Como a vida.» 

José Saramago

As Intermitências da Morte

(romance) – 2005
Música relacionada: Prelúdio da Suite em Ré Maior BWV 1012 de J. S. Bach, Concerto para Violoncelo e Orquestra (4.º andamento) de Elgar, Abertura Coriolano Opus 62 de Ludwig Van Beethoven e Memorial, de António Pinho Vargas

Num país imaginário, um dia, a morte recusa continuar a matar. Os efeitos dessa decisão criam vários paradoxos e conflitos na igreja, na política, nos pensadores, na economia, nas famílias. Face ao caos, passados uns meses, a morte anuncia que volta a matar mas envia, uma semana antes, uma carta ao futuro falecido. Uma dessas cartas, porém, vem sistematicamente devolvida pelos correios – é de um violoncelista (que no livro toca, entre outras, peças de Beethoven, Bach, e Elgar) que a morte, curiosa, decidiu ir conhecer... Esta é a terceira inspiração para a composição original de Pinho Vargas que a Festa! apresentará.

«No fundo, o livro empurra uma porta aberta. Diz aquilo que todos já sabemos: que temos que morrer. Mas talvez mostre, com mais clareza, que temos que morrer para viver. Se não, a vida seria insuportável.»

José Saramago


D. Giovanni ou o Dissoluto Absolvido

(libreto) – 2005
Música relacionada: excertos de Don Giovanni (K. 527), música de Wolfgang Amadeus Mozart e libreto de Lorenzo Da Ponte.

Este é o texto, que pode ser lido como uma peça de teatro, para uma ópera em dois actos que resultou de um convite a Saramago feito pelo compositor italiano Azio Corghi para revisitar o mito de D. Juan, abordado na ópera de Mozart Don Giovanni, um dos clássicos do género e uma das obras musicais preferidas do escritor português. Corghi compusera antes várias obras baseadas em livros de Saramago, incluindo duas óperas originais (ver texto de Tânia Valente).

«O meu Don Giovanni começa onde acaba o de Lorenzo Da Ponte, é de alguma maneira complementar do dele. E a pergunta que constitui o ponto de partida dos meus romances – «E se a Península Ibérica se separasse de Europa? E se a caverna de Platão estivesse debaixo de um centro comercial?» – também se encontra nesta peça: «E se Don Giovanni não tivesse caído no inferno?» Feita a pergunta, a pergunta essencial, as conclusões surgem quase de forma espontânea.»

José Saramago

Clarabóia

(romance) – escrito em 1953, publicado em 2011
Música relacionada: Abertura Coriolano Opus 62 de Ludwig Van Beethoven

O enredo decorre em 1952 e conta as histórias individuais e cruzadas demoradores de umprédio humilde de Lisboa. Uma das personagens, como explica Tânia Valente noutro texto desta publicação, adora Beethoven. Foi o segundo livro escrito por José Saramago. Segundo o site da Fundação José Saramago, o escritor conclui as 319 páginas dactilografadas em 5 de Janeiro de 1953, assinando-as com o pseudónimo «Honorato». Enviado o original por um amigo a uma editora, nunca houve resposta. Clarabóia seria publicado postumamente em2011. 

«É a história de um prédio onde há seis inquilinos, e é como se por cima da escada houvesse uma clarabóia por onde o narrador vê o que se passa em baixo.» 

José Saramago

Nota: Todas as citações de José Saramago e as capas dos livros foram retiradas do sítio na internet da Fundação José Saramago. 

Cinco Peças Cinco Concertos

Alexandre Branco Weffort

 

1
Domenico Scarlatti

Domenico Scarlatti, compositor italiano que viveu entre 1685 e 1757, iniciou a carreira emNápoles, como organista e compositor na capela real. Passou por Veneza e Roma e, em1720 ou 21, veio a Lisboa, como professor demúsica da princesaMaria Bárbara de Bragança, seguindo ao serviço da casa real espanhola quando do casamento da princesa que, mais tarde, veio a tornar-se rainha de Espanha. Ocontexto histórico-social que trouxe Scarlatti a Lisboa surge retratado por Saramago emMemorial do Convento.Ocompositor, autor de 555 sonatas para cravo, dedica 30 delas a D. João V. NoMemorial amúsica vemreferida emváriosmomentos, seja no que refere à educação das crianças da côrte, seja associada a outros elementos, como a Passarola de Bartolomeu de Gusmão ou relacionada com momentos da vida de personagens como Blimunda. Domenico Scarlatti (filho do tambémcompositor Alessandro Scarlatti) viveu no período que usamos designar namúsica como o «período barroco». Contemporâneo de Haendel e Bach, a suamúsica aponta já para elementos que se consolidaram no Período Clássico.


2
Ludwig Van Beethoven

Compositor assíduo na programação do concerto sinfónico da Festa do Avante!, viveu entre 1770 e 1827. De músico prodígio, iniciado à música pelo pai, em 1784 (com catorze anos, portanto), torna- -se organista assistente da Capela Eleitoral. Segue de Colónia para Viena, estudando com Joseph Haydn. Frequenta um curso de literatura, onde contacta com os ideias da Revolução Francesa, o Iluminismo e o movimento literário romântico Sturm und Drang (tempestado e paixão). Contacta com Goethe e Schiller – este último, autor dos versos utilizados na Nona Sinfonia. Atingido por uma doença que lhe provocou progressiva surdez, isso não o impediu de se tornar num dos compositores reconhecidamente mais geniais da história da música ocidental.

3
Johann Sebastian Bach 

Johann Sebastian Bach faz-nos retornar ao perído barroco, sendo hoje considerado a figura cimeira da história da música ocidental desse (e de todos os) tempos. Inserido numa família de longa tradição musical, Bach teve 21 filhos, vários deles compositores de renome. Inicia a sua vida musical em casa, competência que irá ser importante para a sua inclusão no coro da escola de Eisenach (onde, também havia estudado Lutero, dois séculos antes). A dimensão religiosa da vida familiar – a sua mãe seguia a doutrina anabatista – irá marcar o seu modo de idealização musical, como um acto de oração. Compôs ao longo da vida mais de um milhar de obras, desde pequenas peças instrumentais a concertos, missas e oratórios. 

4
Edward William Elgar 

Sir. Edward William Elgar, compositor inglês, viveu entre 1857 e 1934. Seu pai era afinador de pianos e, na loja paterna, Elgar teve acesso à música e aos instrumentos musicais. Era, todavia, autodidacta, tocando piano e violino. Conheceu Dvorak, tendo tocado sob a direcção do autor algumas obras sinfónicas, tendo sido influenciado pelo seu estilo de orquestração. De Elgar, conhecemos todos a célebre Marcha de Pompa e Circunstância, muito utilizada no circuito televisivo europeu. Foi armado cavaleiro em 1904 e tornado baronete em 1931. Perdendo presença nos meios musicais após a Primeira Grande Guerra, o Concerto para violoncelo terá sido a sua última obra de grande impacto. Composta no verão de 1919, a obra possui quatro andamentos: Adagio, Lento, Adagio e, o último, Allegro, que ouviremos neste concerto sinfónico.

5
Wolfgang Amadeus Mozart

Wolfgang Amadeus Mozart, nascido em 1756 e falecendo a 1791, foi um compositor austríaco do período clássico. Iniciou a aprendizagem musical com seu pai, Leopold, aos quatro anos de idade e, aos cinco anos, já era apresentado como menino- -prodígio em Salzburgo. Percorrendo, ainda na infância, vários países (em 1763, Alemanha, França, Inglaterra, Países Baixos e Suíça e, em 1769, Itália), retorna a Salzburgo em 1771, fixando-se em Viena em 1781. As viagens marcaram a sua formação pessoal, ligada ao modo de existência proporcionado a uma criança-prodígio pressionada pelo pai. A ópera Don Giovanni – o libertino punido – teve a sua estreia em 1787. Milos Forman, cineasta autor de Amadeus, irá relacionar a intensidade dramática da partitura de Don Giovanni com a morte de Leopold, pai de Mozart. Adepto de ideais progressistas à época, na obra de Mozart vemos, por exemplo, os sinais da maçonaria (com A Flauta Mágica). Como compositor, Mozart representa o paradigma de libertação do músico ao serviço da corte, do músico que representa as necessidades da classe em ascenção, a burguesia.

António Pinho Vargas

Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Completou o Curso de Piano do Conservatório do Porto em 1987 e o Curso de Composição no Conservatório de Roterdão em 1990. Professor Coordenador de Composição na Escola Superior de Música de Lisboa desde 1991 e Investigador Colaborador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, desde 2006. Foi condecorado pelo Presidente da República Portuguesa com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, em 1995. Em 2012 recebeu o Prémio Universidade de Coimbra e o Prémio José Afonso. Em 2014 recebeu o Prémio Autores pela sua obra Magnificat para Coro e Orquestra. Publicou os livros Sobre Música: ensaios, textos e entrevistas (Afrontamento, 2002) Cinco Conferências sobre a História da Música do Século XX (Culturgest, 2008) e a sua tese de doutoramento concluída em 2010H Música e Poder: para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu (Almedina, 2011). Gravou 10 discos de jazz como pianista/ compositor entre os quais os CD duplos, Solo (2008) Solo II (2009) e Improvisações (2011). A Naxos editou Requiem & Judas (2014) e reeditou em digital a ópera Os Dias Levantados e Verses and Nocturnes (2015). Monodia (EMI 1995) foi reeditado pela Warner, etiqueta que, em 2017, editou o disco Magnificat - De Profundis; o disco Concerto para Violino foi editado pela MPMP. Compôs quatro óperas, três oratórias (coro e orquestra), doze peças para orquestra, oito obras para ensemble, vinte obras de câmara. Entre as obras mais recentes incluem-se Requiem (2012) Magnificat (2013) De Profundis (2014) Concerto para Violino (2015) Concerto para Viola (2016) Memorial (2018) Concerto e Sinfonia (subjetiva) (2019).

Os protagonistas do concerto

Alexandra Bernardo

Especializou-se em Ópera com Elena Dumitrescu Nentwig. Trabalhou com Joana Levy, Nico Castel e Pamela Armstrong, entre outros e estuda actualmente com Elisabete Matos e Dora Rodrigues. Os seus papéis operáticos incluem as personagens de Mozart (Donna Anna, Fiordiligi, Vitellia e Pamina) bem como Dido (Dido & Aeneas, Purcell), Euridice (Orfeo ed Euridice, Gluck), Cunegonde (Candide, Bernstein) e Violetta (La Traviata, Verdi). Em concerto, destacam-se os Requiens de Brahms, Mozart, Fauré, Duruflé e Rutter, Lauda per la Natività del Signore de Respighi, Exsultate, jubilate de Mozart, Magnificat em Talha Dourada de E. Carrapatoso, Gloria de Vivaldi, Magnificat de Bach, a cantata O holder Tag, erwünschte Zeit de Bach, a Fantasia Coral e 9.ª Sinfonia de Beethoven e a 4.ª Sinfonia de Mahler. Conquistou vários prémios nacionais e internacionais. Tem colaborado com orquestras como Divino Sospiro, Orquestra Sinfónica Juvenil, Orquestra do Norte, Orquestra de Guimarães, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra Sinfónica Portuguesa e Orquestra Gulbenkian. É membro fundador da Nova Ópera de Lisboa. 

Armando Possante

Armando Possante é professor de canto na Escola Superior de Música de Lisboa e ensinou no Instituto Gregoriano durante mais de 25 anos. Orientou workshops no Canadá, Inglaterra, Singapura, Espanha e Portugal. É director musical e solista do Grupo Vocal Olisipo e do Coro Gregoriano de Lisboa e foi membro convidado do Nederlands Kamerkoor. Conquistou numerosos prémios de interpretação em concursos nacionais e internacionais na Bulgária, Finlândia e Itália. Gravou mais de duas dezenas de discos, distinguidos com uma nomeação para os prémios da SPA, o Choc du Monde de la Musique e o Diapason d’Or, entre outros. Na área da música contemporânea apresentou em primeira audição obras de vários compositores como Christopher Bochmann, Ivan Moody, Bob Chilcott, Jost Kleppe, Eurico Carrapatoso, Luís Tinoco, António Pinho Vargas, Pedro Amaral, Vasco Negreiros, Sérgio Azevedo, Tiago Derriça, Carlos Marecos e Nuno Côrte-Real, entre muitos outros. Estreou-se em ópera em Così fan Tutte de Mozart, tendo posteriormente participado em produções das óperas L’Amore Industrioso, As Variedades de Proteu, Dido and Aeneas, The Fairy Queen, Venus and Adonis, La déscente d’Orphée aux Enfers, La Donna di Génio Volubile, La Dirindina, Don Giovanni, A Floresta, Corpo e Alma, Jeremias Fisher, O Sonho, L’Elisir d’Amore, Il Barbiere di Siviglia e Gianni Schicchi. 

Mafalda Nejmeddine

Mafalda Nejmeddine, cravista e musicóloga, doutorada em Música e Musicologia - Interpretação pela Universidade de Évora e investigadora integrada do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical. Diplomada com o Curso Complementar de Piano (Academia de Música S. Pio X), a Licenciatura em Cravo (Escola Superior de Música de Lisboa), o 1.º Prémio de Cravo (Conservatório Superior de Paris-CNR) e o Mestrado em Estudos da Criança – Educação Musical (Universidade do Minho). Autora de vários trabalhos de investigação sobre os compositores portugueses e o repertório português para tecla do século XVIII. Como investigadora e intérprete, estreou na Biblioteca Nacional de Portugal um recital de cravo itinerante com sonatas portuguesas inéditas da segunda metade do século XVIII, editou a partitura das «Sei Sonate per Cembalo» de Alberto José Gomes da Silva, realizou a primeira gravação mundial destas obras num cravo português histórico do National Music Museum (EUA), editou a partitura do «Miserere de Villa de Conde» de António da Silva Leite e realizou a estreia moderna da obra.

 Marco Pereira

 Desde cedo, o quarteto de cordas está muito presente na carreira de Marco Pereira com o quarteto de cordas de Matosinhos, de que foi membro fundador. A título individual, Marco Pereira destaca-se no concurso JMP onde foi vencedor de Música de Câmara em 1999 e Violoncelo – nível superior, em 2003, ano em que conquistou também o «prémio Maestro Silva Pereira». A nível internacional destaca-se o 1.º prémio no «Liezen InternationalWettbewerb für Violoncelo» na Austria, na categoria «III Konzert». Venceu também o 1.º prémio no «VI Certamen de Música de Câmara del Sardinero» em Santander, em 2006. Foi também laureado no Concurso de Interpretação do Estoril, Júlio Cardona, entre outros. Apresentou-se a solo com a Orquestra Gulbenkian, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra Sinfónica Portuguesa, Joensuu Orchestra (Finlândia), Orquestra do Atlantic Music Festival (USA), entre outras. Gravou para a etiqueta Sony, a sonata de Beethoven n.º 5 em Ré Maior, op. 102 para violoncelo e piano com o pianista Miguel Ângel Ortega. É violoncelo solo/chefe de naipe na Orquestra Gulbenkian. Foi professor de violoncelo na Universidade de Aveiro e Universidade do Minho. É professor na ANSO. Marco Pereira é «D’Addario Bowed Artist» e «faculty artist» do Atlantic Music Festival –Watterville ( USA ), desde 2011.

ORQUESTRA SINFONIETTA DE LISBOA

A orquestra Sinfonietta de Lisboa foi fundada em 1995 e tem como Director Artístico e Maestro Titular, Vasco Pearce de Azevedo. Realizou já numerosos concertos, por todo o país. Um dos objectivos principais da Sinfonietta de Lisboa é o da divulgação da música de compositores portugueses contemporâneos. É nesse contexto que se inserem as estreias absolutas de obras de vários compositores portugueses e estrangeiros, bem como primeiras audições em Portugal. Desde 2004 a Sinfonietta de Lisboa foi convidada a realizar o concerto de abertura da Festa do Avante!, tendo acompanhado os solistas Pedro Burmester, António Rosado e Mário Laginha, e ainda o Coral Lisboa Cantat. Gravou música original de Bernardo Sassetti para os filmes O Milagre Segundo Salomé, Um amor de perdição e Second Life, e para a peça de teatro Dúvida de John Stanley. Participou no Filme do Desassossego de João Botelho, interpretando a música original de Carrapatoso A Morte de Luís II da Baviera. Em 2020 gravou música original de Mário Laginha para o filme Ordem Mora.

Vasco Pearce de Azevedo

Nascido em Lisboa, Vasco Pearce de Azevedo obtém o Bacharelato em Composição na Escola Superior de Música de Lisboa estudando com Christopher Bochmann e Constança Capdeville. Frequenta cursos de direcção orquestral e direcção coral em Portugal, Espanha, França e Bélgica. Conclui em 1995 o mestrado em direcção de orquestra e coro na Universidade de Cincinnati (EUA). Conquista em 1997 o 3.º Prémio no Concurso Maestro Pedro de Freitas Branco e em 1996 uma Menção Honrosa no II Concurso Internacional Fundação Oriente para Jovens Chefes de Orquestra. Conquista em 1988, com o Coro de Câmara Syntagma Musicum, o 1.º Prémio no concurso Novos Valores da Cultura na área de Música Coral e uma Menção Honrosa na área de Composição do mesmo concurso. É desde 1995 Maestro Titular da Sinfonietta de Lisboa. Actualmente é Professor na Escola Superior de Música de Lisboa.  (maestro) 

Ficha Técnica

Produção: Alexandre Branco Weffort,Madalena Santos, Pedro Tadeu, Tânia Valente e Vasco Pearce de Azevedo. Textos: Alexandre BrancoWeffort, António Pinho Vargas, Pedro Tadeu e Tânia Valente. Criação Gráfica: José Araújo. Paginação: Olga Silva. Produção Executiva: Ângela Serrano, InêsMota, Madalena Santos, Colectivo Espectáculos Festa do Avante!. Realização Vídeo: Media Luso, Lda. Some Ecrãs de Vídeo: Pixel, Lda. Iluminação: Pedro Leston. Director de Palco: Nuno Cruz. Montagem de Cena: Pixel, Lda., Roadies DC, Tapada Crew. Catering: Lisbonne. Agradecimentos: Centro Cultural de Belém, Escola Superior de Música de Lisboa, Teatro Municipal de São Luís e Fundação José Saramago.

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