Dentro da Festa, falar de livros para entender a vida

Uma Feira do Livro remoçada, eis a novidade que, também neste sector, a nossa Festa quis cumprir. A um espaço mais «arrumado», juntou-se este ano uma zona inteiramente dedicado aos leitores mais jovens, onde puderam desenhar, ouvir estórias e folhear livremente as publicações que lhes são dedicadas.

As Edições «Avante!», com o VI tomo das Obras Escolhidasde Álvaro Cunhal em destaque; os volumes da ficção de Manuel Tiago (dos mais vendidos na Feira) e algumas das novidades, tanto das Edições «Avante!», como da editora Página a Página. Amplas prateleiras, permitindo uma melhor visibilidade dos livros expostos, o espaço mais ordenado e as múltiplas editoras que quiseram estar presentes neste certame, expondo as novidades, os clássicos e os fundos de catálogo a preços acessíveis.

E muita gente, muito livro a ser consultado, comprado, manuseado: a Festa da Palavra numa mais ampla, diversa, Festa dos sentidos, da inteligência, da arte e da política.

Em destaque

Obras Escolhidas, tomo VI (1976), de Álvaro Cunhal; textos que abarcam o período compreendido entre Janeiro e Outubro de 1976, véspera do VIII Congresso do PCP realizado entre 11 e 14 de Novembro desse ano. Volume constituído por discursos, excertos de respostas dadas a jornalistas aquando das sessões de esclarecimento para a Presidência da República, entrevistas e diversas intervenções de Cunhal no exercício de uma função de pedagogia política que o dirigente do PCP sempre exerceu.

Virgínia Moura, Mulher de Abril, Edições «Avante! », edição dos escritos e discursos desta grande lutadora antifascista no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento.

Memórias de Jorge Pena, de Sérgio de Sousa, edição Página a Página; romance pautado pela memória, viva e actuante, de um questionador de emoções. A estrutura narrativa destas «Memórias » não será exaltante como a prosazinha que por aí se exibe, rasteira e subdesenvolvida, conduz-nos, ao invés, à principal função cultural e social da literatura: leva-nos a reflectir sobre o nosso tempo e a sociedade que habitamos, reconduz-nos (e como isso, hoje e aqui, nos é urgente) à prática da leitura crítica, substantiva, à exigência de pensar através da arte literária e, pensando, levar-nos a agir.

O Tempo das Giestas, de José Casanova, edição Página a Página; prosseguindo a reedição das obras ficcionais de José Casanova, a Página a Página dá à estampa um dos títulos mais importantes deste grande prosador de Abril. Há na escrita de José Casanova uma apropriação do real, no amplo sentido do realismo de causas que, com o desassombro das revelações, nos remete para o lado mais opaco da opressão salazarista e que se não detém no traço grosso, no estereótipo do anedotizado, antes penetrando a raiz substantiva do regime, expondo, com clareza dialéctica, os mecanismos de classe que o sustentavam. Dossier Segunda Guerra Mundial Ascensão Irresistível, de Kurt Gosseweiler, Edições «Avante!»; dois livros imprescindíveis para o entendimento do que foi e representou, em termos políticos, sociais e económicos a Segunda Guerra Mundial.

Lançamentos

As sessões de lançamento de livros são dos momentos de mais intensa participação e de convívio da Festa do Livro.

Na edição deste ano, estiveram repletas de um público atento e interessado. A provar que, mesmo com meios poderosos de intoxicação, com a mediocridade ufana que campeia nos media detidos pelo grande capital, o povo continua atento aos fenómenos que enfermam este nosso tempo, e busca respostas para entender a regressão civilizacional que nos tentam impor. Procuram nos livros, nos autores comunistas, respostas para as suas perplexidades.

Da Resistência Antifascista à Nacionalização da Banca, de Anselmo Dias. Apresentação de Avelino Gonçalves. Edição Página a Página. Livro que nos fala do período mais conturbado da resistência, dentro da Banca e da acção dos sindicatos do sector contra o poder dos grandes grupos financeiros, os negócios e as suas ligações ao fascismo. O contributo dos sindicatos e dos trabalhadores bancários para o sucesso das nacionalizações no sector. Contributos para aHistória do Sindicalismo no Sector Bancário (1971/75), é um livro imprescindível para a compreensão dos golpes, boicotes e malfeitorias do grande capital financeiro dentro da Banca nos últimos anos do fascismo.

A «Europa» como ela É O Euro: das promessas do paraíso às ameaças de austeridade perpétua, de António Avelãs Nunes. Apresentação por José Lourenço. Dois novos e fundamentais livros de António Avelãs Nunes para a cabal compreensão das derivas contemporâneas em termos económicos e sociais, congeminadas nos grandes areópagos internacionais, que visam, no essencial, tornar permanente a austeridade, a exploração e a opressão sobre os trabalhadores e a classe média e sonegar, em proveito de uns quantos nababos, a riqueza produzida por todos.

No seu estilo directo, lúcido e assertivo, António Avelãs Nunes explica nestes textos a crise e seus mecanismos de embuste; desmistifica os «paraísos» prometidos e as características imperiais que o Euro representa, e vai fundo na análise de uma «Europa» cada vez menos solidária e desunida, e as dicotomias existentes entre um Norte poderoso e rico e os países endividados do Sul. A questão central, levantada por José Lourenço, é a de se saber que «Europa» temos e a quem serve o Euro.

Números da Desigualdade em Portugal, de Eugénio Rosa. Apresentação por Sérgio Ribeiro. Eis, segundo Sérgio Ribeiro, um livro, dentro da análise da economia portuguesa,estimulante e diferente, que justifica leitura e estudo. Os economistas são, prossegue Sérgio Ribeiro na notável apresentação que produziu, pejorativamente conhecidos como «os homens dos números». Eugénio Rosa é um economista, dos raros entre os seus comparsas, que denuncia sem medoutilizando as ferramentas do poder (os números do INE), desmonta-os, analisa-os e diz damentira que lhes subjaz.

Este livro é, diz-nos Sérgio Ribeiro, um libelo acusatório, um manual para a luta, para conseguirmos vencer esta gigantesca trapaça. Os números que Eugénio Rosa analisa neste livro, são forma de aferir da realidade e das malfeitorias do neoliberalismo.

Por sua vez Eugénio Rosa afirmou que existem enormes desigualdades na distribuição da riqueza. Assim, a repartição da riqueza obrigará no futuro a uma efectiva democratização dos rendimentos, à nacionalização de activos, à luta dos trabalhadores e à persecução de uma nova política fiscal.

Marx, Engels e a Crítica do Utopismo, de José Barata-Moura. Apresentação por Pedro Maia. Diz-nos Pedro Maia, na longa e documentada análise deste texto de Barata-Mouraestarmos na presença de uma obra com alto teor de erudição; texto de grande densidade e envergadura; um trabalho que visa o rebentamento das clausuras que persistem na análise do pensamento marxista. Livro marcado por um elevado labor conceptual, que conta, na inventiva e modelar linguagem de José Barata-Moura, um «feitio», diz ele, com um rico património da sageza popular contra factos é que os argumentos contam.

O comunismo é um movimento real, referiu ainda Pedro Maia, o comunismo é o que tem de ser e não um utopismo. A utopia é uma modalidade da ficção, a ultrapassagem da positividade, portanto.

Mais um livro de Barata-Moura a ler com a atenção que a profundidade da sua análise e do seu pensamento plenamente justificam.

A Reforma Agrária Revisitada, sessão viva e muito participada, com o contributo de vários intervenientes, nomes incontornáveis da luta e da resistência e que ao processo da Reforma Agrária, essa que foi «a mais bela conquista de Abril», estiveram indelevelmente ligados.

Agostinho Lopes, analisando a obra de Álvaro Cunhal.Contribuição para o Estudo da Questão Agrária, afirmou que este ensaio de Cunhal visava, entre outras contribuições de primeira linha, negar a tese de Salazar de ser Portugal um país pobre e de escassos recursos para, desse modo, justificar a fome. A essa tese Cunhal contrapõe a ideia do poder do povo, da sua capacidade de luta e de trabalho para moldar a terra e transformar a realidade.

António Gervásio, que falou sobre a sua obra Lutas de Massas em Abril e Maio de 1962, disse-nos dos dias gloriosos da luta pela conquista das 8 horas de trabalho nos campos do Alentejo e do Ribatejo, lutas em que o PCP esteve sempre na primeira linha. Mais de 200 mil trabalhadores participaram nessas jornadas que duraram vários meses; foram realizadas centenas de reuniões nos campos, nos pinhais e nas searas. Livro indispensável para a história dessas dias de brasa, e para o seu amplo significado social e político.

José Soeiro na apresentação da sua obra A Reforma Agrária. A Revolução no Alentejo, afirmou que a Reforma Agrária foi, face aos boicotes dos latifundiários, uma necessidade imperiosa. Foi possível com a Reforma Agrária implementar horários e salários dignos, e criar direitos.Os trabalhadores transformaram a terra em unidade de produção,de vida a germinar nos campos, de riqueza e solidariedade.

Américo Leal, apresentou a sua obra O Rosto da Reforma Agrária, dizendo ser este livro um trabalho de informação sobre a forma como o capital e o salazarismo trataram os trabalhadores nos campos do Alentejo e a acção criminosa desenvolvida pelos latifundiários contra a Revolução, a Reforma Agrária e a criação das UCP, as quais não obstante alcançaram assinaláveis êxitos que pormenorizadamente descreveu.

Francisco do Ó Pacheco, referiu alguns aspectos daReforma Agrária nos campos de Alvalade-Sado, que estão explanados no seu romance Searas Vermelhas de Abril, livro de que já tratamos em pormenor nas páginas do Avante!

A Abílio Fernandes e Vítor Rodrigues, coube a apresentação de um importante documento histórico que é As 12 Conferências da Reforma Agrária. Um Testemunho da Revolução de Abril. Abílio Fernandes, presidente da Associação Povo Alentejano – à qual, com a colaboração da editora Página a Página, se deve a publicação desta obra – começou por dizer ser este livro um documento que, pela sua importância histórica, pelo que revela e pelo rigor dos factos que expõe, contribuirá, por certo, para repor a verdade sobre o que foi e representou a RA. As 12 Conferências foram o espelho da RA, e este livro pretende preservar a memória desses dias.

A Vítor Rodrigues, coube a coordenação da apresentação e edição dos documentos que nos revelam a verdade sobre a mais empolgante conquista do 25 de Abril. Segundo referiu Vítor Rodrigues, ficou evidente a grandeza do trabalho dos trabalhadores do Sul: pôr a terra a produzir, criar postos de trabalho e mais riqueza. E, em jeito de conclusão afirmouUma nova Reforma Agrária é necessária face às ofensivas do capital e dos latifundiários; a terra e outros recursos devem estar ao serviço do País, dos trabalhadores e da economia.

Contra Todas as Evidências – Poemas reunidos III, de Manuel Gusmão. Apresentação de Carina Infante do Carmo.

Poesia exigente, esta de Manuel Gusmão. O leitor encontrará esparsa na poética de MG as vozes que lhe são afins,Carlos de Oliveira, Herberto Helder. O autor digere as vozes concernentes e faz disso a sua autobiografia; sementes para a escrita. Há uma intensidade na marca autobiográfica nos poemas reunidos neste III volume (A Terceira Mão e O Clamor dos Espelhos). Busca, relação com os livros que formam os sinais, as paisagens contemporâneas, as cidades, a exploração – referências patentes na poética de Manuel Gusmão, segundo a análise da professora Carina Infante do Carmo.

Dossier BES/GES – Um Retrato do Capitalismo Monopolista em Portugal. Apresentação de Carlos Carvalhas, com intervenções também dos coordenadores desta obra colectiva Ana Goulart e Miguel Tiago. Carlos Carvalhas, na informada e lúcida abordagem, pontuada de humor, deste livro, começou por afirmar existirem neste documento ângulos de abordagem diferenciados ao traçar aspectos do capitalismo português através da análise de um grande grupo económico (BES/GES).

Texto elaborado através de documentos e das intervenções dos deputados do Grupo Parlamentar do PCP, na Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES/GES. Livro que retrata, igualmente, as ligações do BES e da família Espírito Santo ao fascismo e, na pós-revolução,aos partidos da direita, PS incluído, ligações que hoje, e após as investigações produzidas, são mais que evidentes. Desde sempre este grupo financeiro monopolista esteve ligado ao poder político, que o privilegiava nos negócios.

Coordenado, como dissemos, pela jornalista Ana Goulart e pelo deputado Miguel Tiago, este Dossier é um livro incontornável para o entendimento do que foi/é a acção da Banca e do sistema financeiro privado na crise actual, levando Miguel Tiago a afirmar que A Banca não pode estar entregue, pela importância que tem, a privados. É necessário,do País, ter o controlo público da Banca.

Foram ainda apresentados nestas sessões os livros: Não Há Seda nas Lembranças,de Jorge Serafim, um notável humorista que se aventura, e bem, pelos caminhos da ficção romanesca; e Urbano, o Eterno Sedutor, do historiador e ensaísta Eduardo Raposo.

Acervo fotográfico, documental e testemunhal sobre a vida e obra de Urbano Tavares Rodrigues e o seu propalado poder de seduzir, pela obra, pelo uso das palavras, pela presença, pela generosidade e pelo carácter, todos quantos com ele privaram.

Em jornal «Avante!»

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