CineAvante!, no coração do Espaço Central

Um autêntico festival de cinema

Ficção, documentário, animação, longas e curtas metragens: é tudo isto, e muito mais, o que se pode encontrar no CineAvante!, bem no coração do Espaço Central. Da programação desta edição constam a evocação do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal e a homenagem ao escritor comunista Urbano Tavares Rodrigues, recentemente falecido. O «Shortcutz Lisboa» volta a estar presente e, pela primeira vez, o CineAvante! conta com a participação da associação «Casa da Animação».

A programação do CineAvante!, neste como noutros anos, assemelha-se a um autêntico festival de cinema, com 26 filmes em exibição e a presença de actores, realizadores e produtores. Este ano, em que se cumprem 100 anos do nascimento de Álvaro Cunhal, a programação fecha com o filme de José Fonseca e Costa «Cinco Dias, Cinco Noites», baseado na novela homónima de Manuel Tiago (pseudónimo literário de Álvaro Cunhal). O filme, que retrata a relação entre um jovem que que sair do País a salto e um contrabandista que o ajuda nesse desígnio, é interpretado por Paulo Pires e Vítor Norte.

A homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, nome maior da literatura contemporânea portuguesa e militante comunista ao longo de décadas (com três prisões no seu «currículo» de resistente), tem lugar no sábado a partir das 18h45 e consta da exibição de dois filmes: «Manhã Triste», de Hernâni Duarte Maria e Pedro Noel da Cruz, a partir de um conto do escritor; e «O adeus à brisa», um documentário de Possidónio Cachapa, sobre a vida intensa de Urbano Tavares Rodrigues e a sua forma generosa e solidária de ver o mundo.

O filme «As coisas não são feitas por acaso», de Tiago Cravidão, que passa no sábado de manhã, é, também ele, uma homenagem ao fotógrafo Eduardo Gageiro. Fruto de quatro anos de trabalho – ou de «perseguição» do realizador ao fotógrafo – o filme não pretende fazer uma biografia de Eduardo Gageiro, mas (nas palavras do próprio Tiago Cravidão) perceber como «a sua relação com o mundo lhe permite fazer as imagens que faz».

Muitos e bons filmes

Se no que toca a homenagens e evocações estamos conversados, há muito ainda a dizer sobre a edição deste ano do CineAvante!. «É na terra, não é na lua», de Gonçalo Tocha, capta o que se passa na Ilha do Corvo, com apenas 450 habitantes, residentes numa única vila, uma estrada, uma câmara municipal, um avião três vezes por semana, um posto médico, um infantário, uma escola, uma igreja, um restaurante... «Luiz da Rocha», de Inês Mestre, retrata o centenário café bejense com o mesmo nome, seguindo trabalhadores e clientes, com os seus ritmos quotidianos e os seus hábitos, pondo em evidência relações de familiaridade desenvolvidas ao longo de anos.

De Gonçalo Waddington, «Nenhum Nome» é um filme de ficção que conta a história de «X», de 35 anos, internado numa clínica de cuidados intensivos depois de um grave acidente que vitima a sua mulher, grávida de seis meses. A enfermeira «K», que acompanha a reabilitação de «X», está também grávida, o que torna mais forte a aparentemente impessoal relação a ambos.

«Tabu», do premiado realizador português Miguel Gomes, centra-se numa idosa temperamental, na sua empregada cabo-verdiana e numa vizinha dedicada a causas sociais, que partilham o andar de um prédio em Lisboa. A morte da primeira leva as outras duas a conhecer um episódio do seu passado, passada numa África de filme de aventuras. «Carta para o Futuro», de Renato Martins, é um documentário que acompanha quatro gerações de uma família cubana, ao longo de sete anos. São pessoas comuns que falam sobre o seu país e as suas rotinas, orgulhosas das conquistas e, ao mesmo tempo, questionando o futuro. Um filme sobre amor, revolução e família.

O documentário de Pedro Raimundo «Agora Nós» leva-nos a uma manifestação, essa magnífica expressão do poder do povo, realização colectiva de afirmação de coragem e de participação concreta e directa, sem representação nem delegação, e «A batalha de Tabatô», de João Viana, propõe uma metáfora da situação presente na Guiné-Bissau, contando a história do regresso de Baio, um antigo soldado que serviu as tropas coloniais portuguesas, ao seu país e à aldeia natal de Tabatô, 37 anos após o fim da guerra colonial. «Ao Deus dará», de Tiago Rosa-Rosso, apresenta uma (de tantas) situações desesperantes no País e no mundo de hoje, que só parece ter para oferecer o desemprego, os baixos salários e a emigração.

«Ó Marquês anda cá abaixo outra vez!», de João Viana, é como que uma parábola sobre a situação actual do cinema português, enquanto «É o amor«, de João Canijo, é um documentário «contaminado» pela ficção, rodado na localidade piscatória de Caxinas, em Vila do Conde. É uma história sobre amor, trabalho, sacrifícios e dedicação à família.

Shortcutz Lisboa e Casa da Animação

Este ano, o «Shortcutz Lisboa» leva ao CineAvante! quatro filmes, dois de ficção, um documentário e um de animação. Este último, da autoria de Luís da Matta Almeida e Pedro Lino, intitula-se «O homem da cabeça de papelão» e trata das tentativas para «curar» alguém que só dizia a verdade.

«Auguste», de Pedro Santasmarinas, retrata um homem deixado numa estrada, com um saco na cabeça, por uma carrinha que arranca a alta velocidade – que tenta perceber onde está e o que é suposto fazer... «Mulher.Mar», da autoria de Filipe Pinto e Pedro Pinto, é um filme sobre silêncios e ausências, sobre um ser humano que se abandona para compensar a ausência de quem já partiu. O documentário, intitulado «Píton» (de André Guiomar), dá a conhecer a boxeur Juliana Rocha, acompanhando a sua rotina e os seus combates. Estes filmes passam no CineAvante! no sábado à noite.

No domingo de manhã, é a vez da «Casa da Animação», associação que se dedica à difusão do cinema de animação, apresentar filmes de diversos países: «O Turista», de Martin Máj (República Checa); «Jantar em Lisboa», de André Carrilho (Portugal); «Lapsus», de Juan Pablo Zaramella (Argentina); «O Cágado», de Luís Almeida e Pedro Lino (Portugal); «Oh Sheep», de Gottfried Mentor (Alemanha); «Viagem a Cabo Verde», de José Miguel Ribeiro (Portugal); «Flamingo Pride», de Tomer Eshed (Alemanha), e «A Suspeita», de José Miguel Ribeiro (Portugal).

Notícia do jornal «Avante!», Nº 2074 de 29 de Agosto 2013